Psicologia Clínica

Dependência em Telas e Jogos

Dados atualizados sobre o uso de telas no Brasil, o que caracteriza dependência segundo o CID-11 e os principais sinais de alerta em crianças, adolescentes e adultos.

Por Ana Paula Monteiro Leite · Psicóloga CRP-12/27001

O uso de tecnologias é uma realidade na vida cotidiana de qualquer faixa etária. Entre os objetos com telas, os mais utilizados são os smartphones, as televisões, os computadores e os tablets — e em meu consultório em Florianópolis, essa é uma demanda cada vez mais presente, tanto de pais preocupados com os filhos quanto de adultos que reconhecem o próprio uso desmedido.

Das telas da sala ao bolso de cada um

Antigamente, a televisão era peça central e presente na sala de qualquer família. Quem tinha melhores condições financeiras conseguia ter mais de um aparelho em casa, muitas vezes vivenciando o uso da tela dentro do próprio quarto, da hora de acordar até a hora de dormir. A televisão, em sua programação cotidiana, determinava regras sociais, vestimentas, valores éticos e políticos, e atravessou gerações ditando modelos de comportamento.

Com o passar do tempo, diferentes telas passaram a participar da vida diária das pessoas. Seus diferentes formatos viabilizaram que as pessoas levassem os aparelhos consigo, em qualquer bolsa ou bolso, para onde quisessem. Hoje o uso de diversos tipos de telas é uma realidade generalizada — e os adultos são os que mais usam essas ferramentas no dia a dia, com aplicativos de bancos, redes sociais e agendas pessoais e de trabalho vinculados aos aparelhos.

Pare agora mesmo e veja o seu tempo de uso na internet e no celular. Nas configurações do aparelho é possível conferir a "atividade" diária de uso, e em redes sociais como o Instagram também é possível acessar, nos três traços no canto direito da tela principal, "sua atividade" → "gerenciamento de tempo". Sugiro que você passe a monitorar o seu próprio uso.

Crianças imitam adultos — e sentem a mesma curiosidade

Qualquer criança ou adolescente próximo a um adulto consegue observar o uso diário de telas e, naturalmente, sente interesse e curiosidade de ter o mesmo acesso. Os adultos de referência estão sempre em uso dos aparelhos, interagindo, rindo, levando o celular para o banheiro, muitas vezes deixando de participar do cotidiano da própria casa — o que torna contraditório pedir que as crianças não usem em excesso se os próprios adultos de referência fazem uso desenfreado.

Essa realidade é tão prevalente que uma notícia recente (4 de agosto de 2026, no site cetic.br) apontou que os impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos estudantes têm sido parte importante dos debates atuais, presentes na agenda de oito em cada dez escolas brasileiras — embora a implementação de iniciativas de educação digital, midiática e para a cidadania digital ainda enfrente desafios.

Vale lembrar que a Lei nº 15.100/2025 dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos de ensino da educação básica, somada à Resolução CNE/CEB nº 2/2025, que institui as Diretrizes Operacionais Nacionais sobre o uso de dispositivos digitais em espaços escolares. Ambas são estratégias de enfrentamento ao uso excessivo de telas por jovens, especialmente em ambientes educacionais.

Dados atualizados sobre o uso de telas no Brasil

O Brasil registra uma média de nove horas e meia de uso diário de telas por pessoa — um número expressivo, considerando que um dia útil tem em torno de 15 horas de atividades sociais e produtivas, como escola, trabalho e atividades físicas. Isso significa que, nas demais horas, a pessoa está fazendo uso de telas — ou fazendo uso concomitante às próprias atividades.

O Brasil está entre os maiores índices globais de uso de telas: cerca de um em cada quatro adolescentes brasileiros faz uso abusivo de jogos eletrônicos, e mais de dois terços das crianças estão expostas a tempos de tela acima do recomendado.

Primeira infância

78% das crianças de 0 a 3 anos e 94% das de 4 a 6 anos têm exposição diária a telas, usando celulares e tablets para joguinhos distrativos ou a televisão para ver desenhos. A diferença mais significativa em relação ao passado é que hoje as crianças têm mais acesso aos smartphones dos pais, usados como ferramenta de controle de energia e para "acalmar" a agitação infantil — o que é apontado pela Sociedade Brasileira de Pediatria como preocupante, já que as diretrizes médicas desaconselham o uso de telas antes dos 2 anos.

Adolescência

34% dos jovens jogam diariamente e 12% apresentam risco elevado de dependência ou problemas relacionados a jogos. Soma-se a isso o uso de salas de bate-papo dentro de aplicativos de jogos — muitas vezes sem o conhecimento dos pais — e o acesso a redes sociais inadequadas para a idade.

WhatsApp, YouTube, Instagram e TikTok são as redes mais usadas por adolescentes no Brasil. O YouTube é mais acessado entre 9 e 12 anos, geralmente pela televisão de casa. O TikTok costuma ser mais acessado por crianças e jovens até 14 anos, com vídeos curtos que muitas vezes são assistidos repetidamente, em looping. O WhatsApp é líder em comunicação diária entre 15 e 17 anos, e o Instagram tem entre adolescentes de 13 a 17 anos um mecanismo importante de postagem e interação social — até de relacionamento amoroso mediado pelas curtidas.

Uma pesquisa recente da TIC Kids Online Brasil sobre o uso de Inteligência Artificial generativa aponta que, em 2025, 65% dos entrevistados entre 9 e 17 anos usaram IA generativa para ao menos uma finalidade: 59% para pesquisas escolares, 42% para buscar informações, 21% para criar conteúdo. 10% relataram usar IA generativa para conversar sobre problemas pessoais ou emoções — um uso mais evidente entre adolescentes do que entre crianças.

O que caracteriza dependência

Dependência é o estado de quem precisa de algo ou de alguém para funcionar, sobreviver ou manter o equilíbrio, caracterizando-se pela perda do controle ou pela subordinação a um fator externo.

A CID-11 (Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão) já reconhece o transtorno por uso de jogos eletrônicos. Utiliza-se o código 6C50 para "dependência tecnológica" ou "vício em celular" de forma geral, e o 6C51 para o Transtorno do Jogo Eletrônico (Disorder due to gaming), que classifica o uso abusivo de games online ou offline como condição médica. O uso excessivo de redes sociais, smartphones ou aplicativos de streaming ainda não possui categoria diagnóstica isolada e universal — mas, em minha perspectiva, não tardará para que também seja considerado um uso adoecido.

Para ser avaliado como CID-11: 6C51, deve haver perda de controle sobre o tempo de jogo, prioridade crescente para os jogos em detrimento de outras atividades vitais, e continuação do uso mesmo ciente das consequências negativas na vida pessoal, social ou profissional. Vale dizer que não são só adolescentes e crianças que usam jogos de forma desmedida — há também inúmeros adultos com severos prejuízos ao cotidiano.

A identificação precoce ajuda a evitar que o hábito vire um transtorno grave. Alguns sinais de alerta:

  • Irritabilidade extrema — especialmente quando o uso da tela é interrompido ou proibido, com agressividade, ansiedade ou choro excessivo
  • Abstinência emocional — tristeza, tédio ou apatia quando está sem os dispositivos
  • Preocupação constante — falar sobre o jogo ou redes sociais mesmo enquanto realiza outras atividades
  • Negligência e perda de prazo — deixar de cumprir obrigações escolares, profissionais ou domésticas
  • Abandono de hobbies — perda de interesse por atividades ou passatempos que antes traziam prazer
  • Perda de controle — não conseguir manter o limite estipulado ao tentar reduzir o tempo de uso

O que mais alimenta a dependência hoje

Observa-se com atenção especial o que faz adultos ficarem viciados na atualidade: as BETS (do inglês to bet, apostar) são plataformas de aposta online nas quais o usuário deposita dinheiro real para dar palpites em resultados esportivos, atividade que se tornou muito popular no período da Copa 2026. No Brasil, essas empresas são regulamentadas por lei e menores de 18 anos são proibidos de participar — porém não há garantias de que jovens não consigam burlar os sistemas. As plataformas usam cálculos matemáticos para garantir que as probabilidades estejam a seu favor no longo prazo, o que dificulta que os apostadores vençam e parem de tentar.

Os adolescentes que acompanho em atendimento costumam estar sempre com o celular, e muitas vezes pedem para usar o aparelho nas sessões, compartilhando vídeos ou pedindo para jogarmos juntos. Algumas vezes eu utilizo o celular junto com os clientes, mas geralmente insisto para fazermos atividades sem tela — uma forma de estimular o interesse dos jovens por outras ferramentas, como jogos de cartas e tabuleiros.

Efeitos do uso excessivo para a saúde mental e o comportamento

A preocupação com os efeitos das telas não é nova — médicos e educadores já discutiam os efeitos da televisão no passado. Mas o uso disparou com a evolução tecnológica, e essa preocupação se intensificou após a pandemia de Covid-19, quando o isolamento social inseriu atividades virtuais como realidade cotidiana, muitas das quais permaneceram mesmo após o retorno às atividades presenciais.

  • Ansiedade e depressão — o excesso de estímulos e a comparação com vidas irreais nas redes sociais aumentam os riscos emocionais
  • Queda na atenção — a estimulação excessiva promove alta incidência de dopamina, diminuindo foco, memória e capacidade de aprendizado profundo
  • Irritabilidade — o excesso de informação e cortes rápidos de vídeo hiperestimulam o cérebro e geram agressividade quando a tela é desligada
  • Problemas de sono — a luz azul do celular reduz a melatonina e causa insônia e dificuldade de "desligar" para dormir
  • Danos à visão — olhos secos, fadiga visual e aceleração da miopia precoce
  • Dores e má postura — tensão muscular, dores de cabeça e problemas de coluna
  • Negligência pessoal — esquecer ou recusar cuidados básicos de higiene e alimentação por estar conectado
  • Sedentarismo — o tempo de tela substitui exercícios, aumentando riscos de obesidade e lesões
  • Isolamento social — menos convivência real dificulta a criação de amizades e a espontaneidade de se expressar

No desenvolvimento infantil, um dos impactos mais relevantes é o atraso na fala pela falta de conversa e troca real com os pais — e quando a criança aprende pela tela, o conteúdo pode conter erros ou expressões inadequadas para sua idade. Também tem crescido o número de estudos que investigam a correlação entre uso excessivo de telas e aumento de diagnósticos de neurodivergência em crianças e adultos.

É fundamental respeitar o horário das atividades básicas de sobrevivência — alimentar-se, descansar, cuidar da higiene pessoal — e realizá-las com dedicação, sem a tela como pano de fundo constante. Fique atento ao seu próprio comportamento e ao das crianças e adolescentes da sua família, para que o tempo de tela não ultrapasse o recomendado para cada faixa etária.

Texto escrito pela Dra. Ana Paula Monteiro Leite, Doutora em Psicologia pela UFPA e Psicóloga em Florianópolis — CRP-12/27001.

Percebe sinais de uso excessivo de telas na sua família? Posso ajudar.

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