Psicologia Clínica

Diagnósticos, Patologização e Medicalização da Infância

Uma reflexão crítica sobre o aumento da busca por diagnósticos em crianças e adolescentes, os riscos do rótulo e da medicalização excessiva, e o caminho da despatologização.

Por Ana Paula Monteiro Leite · Psicóloga CRP-12/27001

Há muito se sabe a importância de conseguirmos entender o que está acontecendo dentro de nós. Por isso a importância dada às consultas médicas, exames e rastreamento de qualquer sintoma indicativo de que algo não vai bem no organismo — e, mais recentemente, há um crescente interesse em saber o que ocorre emocionalmente.

Neste artigo proponho pensarmos criticamente sobre um cenário cada vez mais frequente quando essas investigações se referem a crianças e adolescentes. Sugiro que a leitura instigue a análise crítica dos fatores, porque o que observo em minha clínica, com frequência crescente, é uma grande demanda de pais, familiares, profissionais da educação e médicos por uma resposta para sintomas e comportamentos que se apresentam na infância e na adolescência.

Quando o comportamento vira doença

Esse aumento de interesse em fechar diagnósticos traz um grande problema: a transformação de comportamentos normais, conflitos sociais e dificuldades escolares em doenças mentais individuais. Perde-se o limiar do que é considerado uma característica de personalidade ou "jeito de ser" de uma pessoa, para passar a identificá-la como um problema que deve ser resolvido e/ou curado.

Patologização é o termo usado para o ato de dar nome de doença a um jeito de ser — como uma criança que tem muita energia e agitação, alguém que apresenta timidez e dificuldade de se relacionar, ou quem se coloca com opiniões próprias e age com "rebeldia". Situações naturais do processo de socialização passam a ser entendidas como doença.

Atualmente observo mais interesse da sociedade em saber "o que é isso? qual o nome e o código?" do que "como você se sente?" ou "como posso lhe ajudar a passar por isso?".

Culpabilização individual pelo sofrimento emocional

Nota-se uma responsabilização do sujeito, que passa a ser entendido como alguém que precisa ser corrigido, melhorado, tratado — desconsiderando quase totalmente todo o contexto social, econômico, familiar e relacional no qual a criança e o adolescente estão inseridos.

O rótulo que limita — o "efeito Pigmaleão"

O que escuto das crianças, dos adolescentes e dos pais é que, a partir do diagnóstico, há uma mudança importante no tratamento social dado ao indivíduo, que pode se tornar um rótulo limitante, um estigma social e até levar à medicalização excessiva.

No caso do rótulo limitante, ocorre o chamado "efeito Pigmaleão" (termo que vem da mitologia grega, referente a Pigmaleão, um escultor que se apaixonou pela estátua perfeita que esculpiu e a quem os deuses deram vida). O termo identifica um fenômeno psicológico no qual as expectativas que uma pessoa tem sobre outra influenciam diretamente seu desempenho e comportamento, fazendo com que as previsões se tornem realidade. No caso de crianças ou adolescentes diagnosticados, há grande risco de familiares e professores passarem a ver o indivíduo somente através do diagnóstico, limitando seu potencial de desenvolver outras habilidades, comportamentos e atitudes.

Estigma social e medicalização excessiva

O estigma social, que escuto com muita frequência em meus atendimentos, está relacionado ao preconceito que a sociedade tem por não conhecer os diferentes problemas emocionais e/ou a neurodiversidade — de modo que o indivíduo "rotulado" pode viver inúmeros julgamentos sobre sua forma de ser, ou ser acusado de fazer uso "de má-fé" de sua condição para obter vantagens. Isso desacredita o sofrimento do outro sem conhecê-lo em sua realidade cotidiana, e muitas vezes leva pessoas diagnosticadas a não fazer uso de direitos adquiridos por medo de retaliação ou julgamento social.

Outro fator importante é a medicalização excessiva. Quando o foco passa a ser no sintoma a ser medicado ou "corrigido", esquece-se a individualidade e o contexto humano por trás do comportamento. Arrisco problematizar que a indústria farmacêutica fica bem feliz em poder contribuir com a crença de que tudo na vida pode ser resolvido com medicamentos — observa-se hoje uma evidente mercantilização do sofrimento humano, quando angústias normais da existência se tornam facilmente patologias que exigem consumo contínuo de remédios.

Não estou aqui dizendo que os remédios não são importantes — entendo que muitas vezes são fundamentais. Todavia, não se pode dizer que falhas na conduta dos profissionais do ensino, que muitas vezes não têm uma didática interessante para manter a atenção das crianças em sala de aula, possam ser resolvidas com o uso de remédios.

Impacto social e escolar

A culpa pelo sofrimento ou pela nota baixa fica apenas na criança, o que pode estar escondendo falhas potenciais da escola, na forma de ensino, na dinâmica pedagógica e no próprio processo de amparo e suporte educacional dentro da família.

Patologizar toda e qualquer pessoa significa que, em vez de investigar e trabalhar de forma sistêmica o contexto familiar, social e pedagógico, problemas comuns do crescimento passam a receber rótulos clínicos e tratamento medicamentoso como grande aliado. Na ânsia de dar um diagnóstico para um quadro de tristeza, por exemplo, muitos pais e responsáveis perdem a oportunidade de dar escuta, atenção e acolhimento ao sofrimento real daquela criança ou adolescente — a dor passa a ser uma busca desenfreada por um código de diagnóstico.

A problematização dessa lógica de saúde-doença revela como o mercado e as instituições reduzem a complexidade da vida humana a categorias biológicas rígidas. Sob essa perspectiva crítica, a saúde deixa de ser um processo social e o sofrimento psíquico passa a ser tratado como um defeito mecânico do cérebro.

Outros apagamentos históricos

Vale analisar também indivíduos que, ao longo da história, viveram diversos apagamentos — como pessoas com sofrimento emocional e sintomas evidentes em virtude de racismo, desigualdade social, violência doméstica ou, no contexto escolar, a precarização de espaços com falta de condições dignas de vida e estudo. Todos esses fatores acabam sendo atribuídos como responsabilidade individual, como se fatores sociais fossem desequilíbrios químicos pessoais.

Despatologização — um caminho possível

Felizmente hoje se observa também um crescente movimento de despatologizar — deixar de tratar um comportamento, uma condição, uma diversidade ou um sofrimento humano como se fossem uma doença ou um transtorno médico que precisa obrigatoriamente de cura.

Um caminho possível é auxiliar a sociedade a entender que o que está sendo considerado doença pode ser parte da variação natural da vida. Quanto mais pessoas acessarem informações corretas sobre o sofrimento psicológico e a neurodiversidade, mais podemos desmistificar e esclarecer informações equivocadas. Esta escrita é parte desse propósito — acredito que pequenas doses de conhecimento confiável podem ajudar mais pessoas a refletir criticamente sobre fatos sociais.

Há inúmeros movimentos sociais e profissionais que defendem o direito à diferença e à manifestação do sofrimento sem o carimbo de uma doença, com práticas intersetoriais que integram psicologia, pedagogia, assistência social e arte para acolher a criança e o adolescente sem medicalizar sua existência. Quanto mais a sociedade compreender seu próprio papel — tanto na influência negativa quanto na cura de importantes mazelas sociais — melhor será para desenvolvermos uma coletividade saudável, empática e unida.

Texto escrito pela Dra. Ana Paula Monteiro Leite, Doutora em Psicologia pela UFPA e Psicóloga em Florianópolis — CRP-12/27001.

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