Embora hoje não se fale tanto em bullying escolar na mídia geral, não significa que seja um problema extinto. É uma temática presente no cotidiano escolar que merece atenção e campanhas de prevenção e erradicação — e que chega com frequência ao meu consultório em Florianópolis.
O que é Bullying?
O termo bullying tem grafia em itálico por ser emprestado do inglês, que na tradução literal significa "intimidação". O verbo to bully pode ser traduzido como ameaçar, maltratar, assustar — sinônimos que só se referem ao mal e que não deveriam, jamais, acontecer em qualquer ambiente; o que dirá no ambiente escolar.
De forma geral, bullying se refere a comportamento agressivo que ocorre de forma intencional de um indivíduo contra outro e/ou de um grupo contra alguém. É um comportamento repetitivo, geralmente direcionado a alguém que aparentemente apresenta alguma fragilidade.
Contextos escolares são espaços onde há uma diversidade muito grande de classe social, raça, gênero, faixa etária e deficiências — portanto, um amplo espaço para a (in)tolerância às diferenças. Vale destacar que o bullying não ocorre exclusivamente em ambientes escolares, mas costuma ser neste local o principal cenário para os comportamentos agressivos.
Com muita frequência, recebo em meus atendimentos em Florianópolis queixas de crianças e adolescentes que vivem esse processo violento como vítimas. Também já acolhi adultos que recordam tristes memórias de sofrimento vividos na infância — cicatrizes de medo e insegurança que permanecem até hoje.
Principais Tipos de Bullying
Físico
Agressões corporais diretas: socos, chutes, empurrões, colocar o pé no caminho para o outro tropeçar, beliscões ou puxões de cabelo.
Em um caso clínico que acompanhei, o adolescente era obrigado a passar pelo corredor onde outros colegas faziam diferentes toques em seu corpo, sendo o mais agressivo bater com as duas mãos em suas orelhas — levando-o a dores e quase surdez parcial. No passado, era considerado uma "brincadeira", mas hoje se sabe a gravidade que o chamado "telefone" causa no canal auditivo da vítima.
Verbal
Uso de apelidos pejorativos, xingamentos e insultos para ofender ou ridicularizar a vítima. Costumeiramente são utilizados aspectos do corpo ou características psicológicas que remetam à fragilidade. Alguns exemplos:
- Peso e corpo — termos gordofóbicos ou piadas com a magreza extrema
- Uso de acessórios — apelidos relacionados ao uso de óculos, aparelhos ortodônticos ou gesso
- Cabelo e traços faciais — ofensas sobre textura do cabelo, cor da pele, formato do nariz
- Dificuldade de aprendizado — termos que ridicularizam a inteligência
- Destaque acadêmico — isolamento social de alunos aplicados por suas notas altas
- Orientação sexual e gênero — termos homofóbicos e machistas
- Condição socioeconômica — piadas sobre roupas, materiais escolares ou bairro onde mora
- Origem e sotaque — xenofobia direcionada a alunos de outras regiões do país ou do exterior
Esta modalidade pode também ser classificada como Preconceituoso quando os atos são direcionados à origem, raça, gênero, religião, orientação sexual ou condição física da pessoa.
Moral
Atos de difamação, calúnia ou disseminação de boatos que destroem a reputação e a integridade da vítima. No ambiente escolar, uma fofoca pode ganhar muito espaço, sendo repassada de grupo em grupo até que ninguém saiba sua origem ou veracidade.
Em um caso que acompanhei, os demais adolescentes da turma ficavam cochichando quando a cliente andava pela escola, rindo e desviando ao ela passar — e ela nunca soube do que se tratava. Essa incerteza causou intensa ansiedade e desejo de não ir à escola.
Psicológico
Ações de perseguição, ameaça, dominação e chantagem que causam medo e abalam a saúde mental. Muitas vezes as violências são combinadas: perseguição associada a xingamento, intimidação nos espaços que a pessoa frequenta.
Tive uma cliente que costumava se esconder na biblioteca da escola nos intervalos e saídas para não ficar exposta nas áreas comuns. Lá, ao lado da bibliotecária, sentia-se protegida — pois ninguém a provocava.
Social
Ato deliberado de ignorar, isolar ou excluir uma pessoa de grupos e atividades. Muitas vezes os colegas simplesmente deixam de falar com a pessoa e a ignoram — ela se sente culpada e perdida, buscando entender algo como se fosse a responsável pelo próprio problema.
Neste contexto, vale destacar o fenômeno FOMO (Fear of Missing Out — "medo de ficar de fora"): a ansiedade sentida ao acreditar que outras pessoas estão vivendo experiências ou eventos dos quais a pessoa não participa e nem foi informada.
Material
Roubo, furto, destruição ou ocultação de pertences de terceiros intencionalmente. Com frequência uma cliente se queixava de ter que voltar dos intervalos direto para a lixeira da sala para recolher seus materiais — que sempre eram depositados ali. Em casa, seus pais ainda brigavam com ela por achá-la descuidada com seus objetos pessoais.
Virtual (Cyberbullying)
Agressões, ameaças e humilhações realizadas por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens ou jogos online. Com a expansão global das redes sociais, qualquer informação disseminada a respeito de alguém ganha proporção que extrapola o ambiente restrito da escola.
Com frequência escuto a preocupação de meninas adolescentes que, por confiança em um relacionamento afetivo, se permitiram ser fotografadas — e suas imagens foram divulgadas em grupos de WhatsApp, muitas vezes em situações muito privativas. Outro exemplo comum é a criação de grupos sem um integrante específico, e os participantes fazerem questão de informar à pessoa excluída que há outros grupos para se comunicar.
Sexual
Atos de assédio, coerção, abusos ou insinuações indesejadas que afetam a sexualidade da vítima. Com bastante frequência, esta forma está interrelacionada com o uso de tecnologias para fins maléficos: divulgação de nudes, criação de fake news e montagens com Inteligência Artificial para atingir a dignidade e moral de alguém.
Escrito
Agressão realizada por meio de bilhetes, cartazes, pichações ou desenhos depreciativos. Uma forma comum que pode acontecer inclusive entre crianças pequenas — uma maneira de direcionar sentimentos ruins contra uma pessoa, muitas vezes desenhando-a de forma caricata com acentuação em partes do corpo.
Tive diversos clientes que receberam bilhetes ofensivos ao longo da vida escolar dos quais jamais conseguiram identificar o autor. Muitos tentaram recorrer à coordenação da escola, mas sem sucesso — pois os autores faziam de tudo para não serem identificados.
Como Reconhecer que sua Criança Pode Estar sendo Vítima
Sinais de Alerta
As crianças e adolescentes que sofrem algum tipo de violência podem ter muita dificuldade de expressar o que estão vivendo. Muitas vezes são ameaçadas pelos algozes de que, se contarem para alguém, a violência poderá ser muito pior.
Ainda assim, é possível identificar que algo está errado. As vítimas frequentemente apresentam:
- Queda no rendimento escolar e desatenção às aulas
- Sintomas de ansiedade (veja o texto sobre ansiedade neste site)
- Isolamento nos espaços coletivos
- Recusa em ir à escola — às vezes inventando doenças para faltar
- Dores frequentes sem causa médica aparente
- Baixa autoestima e alterações no humor
- Alterações no sono e na alimentação
É preciso muita atenção à rotina das crianças e dos adolescentes. Qualquer alteração nas relações interpessoais pode ser indicativo de sofrimento psicológico e deve ser investigado.
Consequências Emocionais
As consequências podem ser graves, resultando em depressão e distúrbios comportamentais. Com frequência, para tentar aliviar a dor emocional, as vítimas podem se machucar fisicamente — porque passam a se julgar realmente inferiores, tal como as ofensas que lhes foram direcionadas.
Se você já viveu isso na infância ou adolescência e não foi acolhido — você sabe ainda melhor a importância de dar atenção a este sofrimento. Bullying não é brincadeira sem maldade. É uma violência real e deve ser combatida.
Texto escrito pela Dra. Ana Paula Monteiro Leite, Doutora em Psicologia pela UFPA e Psicóloga em Florianópolis — CRP-12/27001.
Seu filho apresenta algum desses sinais? Posso ajudar.
Falar com Ana Paula