Psicologia Clínica

O que é Ansiedade?

Conceituação e exemplos clínicos em crianças, adolescentes e adultos.

Por Ana Paula Monteiro Leite · Psicóloga CRP-12/27001

Uma das queixas mais frequentes no meu consultório é a ansiedade. É um nome bem conhecido e quase todo mundo, na atualidade, em algum momento se descreve como ansioso. Mas você sabe o que é ansiedade — e como ela difere do medo saudável?

Medo e Ansiedade: qual a diferença?

Para entender a ansiedade, primeiro preciso falar sobre medo. Todos os seres humanos sentem medo — ele é uma resposta fisiológica e instintiva ligada a uma ameaça real, concreta, entendida como um risco à preservação da vida do indivíduo. O organismo inteiro se prepara para combater e/ou fugir do cenário de risco. É uma estratégia de proteção à vida. Portanto, é natural, saudável e necessária.

No medo, o indivíduo sente sinais físicos correlacionados a essa experiência: aceleração do batimento cardíaco, que faz o sangue ser bombeado mais rapidamente para irrigar músculos utilizados para correr ou lutar; aceleração da respiração; dilatação das pupilas. A adrenalina ativa todo o sistema de alerta, tornando o ser humano mais atento ao ambiente. Assim que a situação termina ou é resolvida, a sensação encerra e o corpo volta ao fluxo normal.

A ansiedade, por sua vez, costuma estar presente em situações geralmente criadas, fantasiadas, imaginadas. Pode haver uma situação real que está prestes a ocorrer — como uma prova ou uma mudança importante, prevista para o futuro —, mas ela não representa um risco real à vida. Todavia, o organismo age como se assim o fosse, desencadeando os mesmos sintomas do medo.

No medo, a ameaça é real e presente. Na ansiedade, a ameaça é imaginada, futura ou desproporcional à situação real.

Exemplos Clínicos por Faixa Etária

Em Crianças

Frequentemente as crianças chegam à clínica com o exemplo de que vão levar "uma bronca" por algo que fizeram e temem a reação da família. Quando questionadas sobre o que acham que pode acontecer, afirmam que podem apanhar ou ouvir os pais brigando e gritando. A criança nem tem certeza sobre o que irá ocorrer, nem como, nem quando — mas imagina que será algo ruim.

Outro exemplo comum: a criança passa a expressar medo de ir à escola porque "pode ser que a professora faça uma pergunta que pode ser que ela não consiga responder". Há uma antecipação de algo que ainda não ocorreu — e mesmo que ocorra, não deveria desencadear medo, pois ela está indo à escola exatamente para aprender e errar.

Em Adolescentes

Muitos adolescentes se preocupam com o resultado ao fim do ano letivo, ou se terão bom desempenho no ENEM. Também já escutei de jovens a importância dada ao desempenho em atividades esportivas — como dominar o skate ou patinar de roller na orla de São José. Frequentemente apresentam preocupação com aparência, estética corporal e a reação de pessoas de seu interesse, o que muitas vezes os leva a "se esconder" por não saber como será o futuro — mas já supõe que será negativo.

Um adolescente que expressa preocupação em encontrar com os amigos porque "pode ser que eles façam uma brincadeira que pode ser que ele não goste" demonstra algo que merece atenção. É fundamental entender se as situações são reais ou somente fruto da imaginação de antecipação de cenários negativos.

Em Adultos

Já ouvi adultos se queixarem de preocupação com um simples resultado de exame de sangue de rotina, mas também sobre uma notícia importante que precisarão dar a um familiar adoecido, ou uma conversa difícil com o chefe que pode ou não resultar em promoção. As situações que desencadeiam ansiedade são inúmeras e muito particulares para cada indivíduo — o que preocupa uma pessoa pode não ser o mesmo que preocupa outra, independente da faixa etária.

Quando a Ansiedade Vira Transtorno?

O medo passa a ser patológico quando é sentido diante de situações sem fundamento real para desencadear preocupação, fazendo com que a pessoa passe a viver em "estado de alerta" mesmo quando a situação não é de risco. Quando a ansiedade se torna constante e domina as atividades cotidianas, podendo paralisar o indivíduo, ela caracteriza um transtorno.

Utiliza-se o termo transtorno psicológico quando há alteração significativa no funcionamento cognitivo, emocional ou comportamental do indivíduo, com sofrimento intenso e prejuízos na capacidade de realizar atividades diárias, trabalhar e manter relações sociais.

Tipos de Transtorno de Ansiedade

Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), os transtornos de ansiedade são classificados dentro da categoria "Transtornos de Ansiedade ou Relacionados ao Medo". O mais comum é o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), caracterizado por preocupação excessiva, persistente e difícil de controlar sobre diversos eventos e atividades do dia a dia.

Para ser caracterizado como transtorno, os sintomas devem persistir há pelo menos 6 meses e conter pelo menos algumas das seguintes características, com prejuízos evidentes no cotidiano:

  • Preocupações constantes — o indivíduo fica pensando continuamente sobre saúde, finanças, trabalho/escola e relacionamentos, às vezes mudando de assunto em assunto em temporadas.
  • Sintomas físicos — alterações no sono, tensão muscular, fadiga constante, dores de cabeça, palpitações, sensação de "borboletas no estômago", falta de ar, náuseas, tontura e distúrbios gastrointestinais.
  • Dificuldades cognitivas e psicológicas — problemas de concentração, lapsos de memória, alteração repentina de humor e irritabilidade.

Os demais tipos de transtorno de ansiedade incluem:

  • Transtorno de Pânico — sintomas similares a um infarto, com forte dor no peito e angústia intensa.
  • Agorafobia — medo e/ou dificuldade de estar em locais abertos e multidões.
  • Fobia Específica — medo direcionado a objetos ou situações específicas (altura, locais fechados, animais, agulha).
  • Transtorno de Ansiedade Social — medo extremo e persistente de ser julgado ou avaliado negativamente em situações sociais ou de desempenho.
  • Transtorno de Ansiedade de Separação — medo ou angústia intensa ao se afastar de figuras de apego; muito presente em crianças no início da vida escolar.
  • Mutismo Seletivo — mais comum na infância; incapacidade consistente de falar em situações sociais específicas, como na escola.

Em todos estes casos, recomendo psicoterapia! Para cada situação e caso clínico, será traçado um trabalho para compreensão das situações que promovem gatilho e como auxiliar os indivíduos a lidar com seus sintomas e comportamentos, sempre em busca de bem estar geral e restauração do equilíbrio emocional.

Texto escrito pela Dra. Ana Paula Monteiro Leite, Doutora em Psicologia pela UFPA e Psicóloga em Florianópolis — CRP-12/27001.

Reconheceu algum desses sintomas em você, em seu filho ou em alguém próximo?

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